quinta-feira, 23 de março de 2017

Terra de cegos

Oito meses após participação do sinistro, seis meses após envio da última documentação necessária (orçamentos, e que não me cabia enviar, só sou a lesada, e não a cliente), tudo na mesma.
Um dia depois de eu ter tirado um bom tempo do meu dia para elaborar email a reclamar, cheio de termos jurídicos, aliás nem por isso muito densos, como "responsabilidade extra-contratual", "danos patrimoniais" e "danos não patrimoniais", ou "agravamento de danos imputável a demora na V. decisão", culminando com "prazo de dez dias para resposta cabal ou entregarei assunto ao meu advogado, para recurso às devidas instâncias judiciais", e já me ligam todos lampeirinhos, ali a agilizar a cena.
Num país onde compensa ser Golias, valha-me a sorte de - vá lá - ser uma David armada com fisguinha. Nem imagino a rameira de vida de quem não a tem ou não tenha aprendido a apontar, fosga-se.

quarta-feira, 22 de março de 2017

E depois admiram-se de haver cada vez mais divórcios

- Ah, queres ver o segundo Star Trek? Aquele em que entra o Idris Elba?
- 'Tá beeeeemmmm....



(não tenhas cuidado com o que te dou a comer/beber, não.)

segunda-feira, 20 de março de 2017

Nós por cá

Eu - 'Tão diz que o Ben Affleck veio a público admitir que tem problemas de alcoolismo e não sei quê.
Ele - O alcoolismo não desculpa o Batman.
Eu - ...

sábado, 18 de março de 2017

Sweet kitty o'mine

Atenuada a culpa, o desgosto, e enterrados todos os "ses" que me vinham atormentando (se tivesse sido mais atenta, se tivesse reconhecido os sinais, se tivesse agido mais cedo, se tivesse, se fizesse, se, se, se), finalmente concedi que era tempo de adoptar um/a novo felino/a lá para casa. Dois, talvez; sempre teriam companhia enquanto estamos fora. Conversámos e acertámos ponteiros, não que as nossas exigências e pré-requisitos sejam extensos, mas é preciso ser responsável e definir, a priori, qual a nossa disponibilidade e capacidade. Sim, preferimos meninas, mas se for um par pode ser um de cada. Sim, preferimos jovens, mas até três anos vale tudo, e não descartamos a possibilidade de nos embeiçarmos por um/a mais velho/a. Bebés é que não, que nem ficava descansada: qualquer bichito bebé precisa de um acompanhamento que não podemos dar, a gente ainda trabalha para comer. Cores, raças, é indiferente.

E iniciei a busca. Vivó feicebuque, ali encontra-se de tudo. Sendo que "tudo" é dar-me conta da triste realidade de dezenas, centenas de animais a aguardar adopção, principalmente cães. E daqui vai já um disclaimer e palavra de muito apreço por todas as pessoas que se dedicam a resgatar, tratar e mimar os bichos que ninguém quer. É preciso muita dedicação, altruísmo e amor. Mas depois há a face negra da lua.

Primeiro, não deixa de me espantar a quantidade absurda de associações, instituições, grupos mais ou menos formais de pessoas dedicadas à causa animal. Penso que tal se deverá também a um desinteresse das autarquias em tomar as rédeas desta função que é garantir o bem-estar animal, sendo que a questão dos animais errantes é, em primeira linha, uma questão que deveria ser tratada e apoiada pelo poder local. Felizmente não é o caso da minha freguesia (orgulho!) que está a tratar de ser pioneira neste assunto. Mas a realidade é a de dispersão de esforços e meios, o que não será muito produtivo em termos de resultado, adiante. A verdade é que são constantes os perfis com peditórios, apelos mais ou menos desesperados, e outras coisas, que é a cena encanitante seguinte.

Segundo, ele há pessoas muito dedicadas e altruístas, verdade, mas entre estas e paralelamente a estas a percentagem de malucos é considerável. Desculpinhas aos mais sensíveis, que eu cá também sou muito adepta da causa de bem-estar animal, mas há, no meio, gente que precisava, asap, de apoio psicológico. Ou uma vida. Sim senhora, muito carinho e mimo aos bichos; ok tudo bem, até somos vegetarianos ou vegan; mas fica um bocadinho mal a gente tão empática depois ter atitudes em relação ao ser humano que, ahém. Exemplo: animal maltratado, por gente obviamente desequilibrada ou simplesmente má, está mal, indigna, é chocante; mas não se deseja fazer o mesmo a dita gente. Um gajo ou é humanista ou não é. Ir para os murais que exibem bichos em estados lastimosos (e há animal lovers que se comprazem em, assiduamente, exibir tais exemplos gráficos de crueldade) destilar uma vontade de mal fazer aos perpetradores é ser igual a eles. Manifestar sentimentos de "matava-os a todos" é ser tão selvagem quanto eles. Afirmar à boca cheia que face a tais situações se perdeu a fé no ser humano, se não for uma declaração prévia ao suicídio de quem o diz, é só parvo.

Terceiro, e ainda dentro do grupo de animal-lovers que acham que as 'ssoas são todas más e podres porque há alguns a fazer mal a bichos, mas ainda assim não verbalizam desejos de tortura e morte horrenda a quem o faz, temos duas nuances: a) os que aproveitam, face a qualquer descrição de crueldade animal, seja de abandono ou mesmo mau trato físico, para dar o seu bom exemplo. "Ai que gente tão má, eu estive desempregado/a, doente, com caspa, a viver num barraco, e nunca faltou nada aos meus bichinhos". Que bom, são excelentes pessoas, pegai lá a medalhinha e ide pontificar para o raio que vos parta. Sabeis lá das circunstâncias dos outros. b) os que vêm exprimir tristeza, descontentamento, sentimentos mui extremos, normalmente pontuados por emojis, mas nunca fizeram um cu nem deram cinco tostões por causa alguma, humana ou animal. Adoram sofrer, por sentem muito, são muito sensíveis, e não param de o demonstrar alto e bom som a todo o mundo. como os que lêem notícias de desastres, choram muito, "ai coitadinhos, coitadinhos", e depois fecham o correio da manhã e vão à sua vida.
Enfim, dava para vários tratados.

Anyhoo, e continuando. Detectei e seleccionei várias instituições ou associações que me pareceram sérias, e restringi-me a essas. Vejo os respectivos anúncios, mas ainda me sentia relutante a avançar. Mas um dia avancei. Escrevi e-mail para o contacto indicado, onde me identifiquei, dei nº de contacto, expliquei a nossa situação e interesse em adopção, quiçá dupla; responderam-me de volta e telefonaram; marquei uma visita. E lá fomos, me mate e eu, visitar os três jovens que se encontravam na instituição (ao que parece haverá muitos mais em FAT, mas não me deram indicação de ter uma lista organizada com características, sequer; má política, adiante). E zás, gostámos de dois dos bichos. Gostámos é pouco. Falámos com a responsável presente, contei que tínhamos perdido uma gatinha já com 14 1/2 para insuficiência renal, iadaiada, conversa de circunstância, descrevo a casa e condições que temos, e fulana gela à menção de "varanda". Ah, têm uma varanda aberta! Eles fogem... Pois temos. E um pátio. Descrevo dita varanda e pátio, varanda essa vedada nos pontos mais sensíveis com sebe daquelas do leroy em pauzinhos, metro e meio (a nossa velhota odiava e tinha medo de outros gatos, era para os impedir de entrar mais que impedi-la de sair). O acesso à varanda, só quando estamos em casa; ao pátio só quando lá vamos. Varanda não dá para a rua, mas para zona de traseiras com logradouros (muito comum em Lisboa), não é alta, sequer. Mas ela ficou paralisada no "varanda", acho que nem ouviu mais nada, até esqueceu a parte da gata que viveu naquelas condições durante 13 anos, e nem morreu disso. Aproveitou (vide desabafos supra) para mencionar a sua varanda, devidamente marquisada, para que seus pupilos não fujam. Explico que no can do (sou membro fundador e, so far, sócia única da BAM!, Brigada Anti-Marquise). Ao menos uma rede. Nopes: varanda tem estendal exterior acoplado, não é exequível.

Antes de prosseguir: fogem é o caracinhas. Podem ir dar uma volta, controlada, aliás, mas fugir? Logo que um gato - obviamente esterilizado - se apanhe lá em casa, a comer do bom e do melhor, com mantas e caminhas à descrição, dois escravos totós, é o foges. 'Tá bem, abelha.

Prosseguindo, fomos chumbados. Parece que ter filhos e uma varanda, tudo bem; animais, é que não. Os bichinhos são para estar em casa, em segurança. E lá ficarão, claro, como os outros na casa da dita colaboradora, onde parece que já são mais que vinte, e não admira, com tanto fricote para lhes dar destino. Mas claro, muito melhor ter duas dezenas de bichos numa casa, com marquise, sem atenção personalizada, decerto sem as condições que lhes daríamos, que um ou dois chez nous, les palhacitos. É que assim depois podem ser as mártires abençoadas da causa animal, as que sacrificam higiene e bem-estar (próprio e dos vizinhos, que vinte gatos, um dia inteiro sozinhos, nem com dez caixas de areia deixa de cheirar), vida própria, liberdade, em prol dos queridos, queridos bichinhos, esses seres puros sem maldade, que humano nenhum lhes chega aos calcanhares para cuidar, lá todos acondicionadinhos a monte mas muito resguardadinhos, deunolibre de apanharem ar que ainda resfriam, melhor ser também uma casa sem electricidade que ainda se enforcam nos fios, ou os mordem e morrem esturricadinhos, ai jasus que ninguém é tão bom como eu, e depois venha daí um donativo que estamos soterrados de bichos para alimentar, vacinar, pipetar, wczar.

E pronto, para a semana vamos a um sítio sem tanta frescura, daqueles que sabem que não tarda vêm aí novas ninhadas que lhes vão largar à porta e já têm muito com que se coçar e nem um nico de espaço, um sítio onde - presumo e espero bem - sabem que quem cuida 14 anos não é de rejeitar, um abrigo pret-a-porter, de entra sem gato, sai com gato.
Quanto aos outros: ó pá, cresçam e façam-se, e entretanto forniquem-se.

Aditamento: me mate fez-me notar que a tal pessoa, afinal, terá dito que tem três gatos e não vinte e três. não sei qual de nós ouviu/entendeu mal, mas uma coisa é certa: já pude constatar haver pessoas que acolhem, à vontade, mais de uma dezena de gatos.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Actual estado de coisas


O ponto alto do fim-de-semana

Julguei que tinha ocorrido logo sábado ali pela hora de almoço, quando assistimos a duas indivíduas de etnia cigana a rematar uma discussão com um lojista de tez castanha com um "vai para a tua terra!".

Mas entretanto, no domingo à noite, dei com um post de um reputado escritor português, há muitos anos radicado num outro país europeu (para onde emigrou há décadas, em busca de uma vida melhor e um país onde não fosse perseguido ideologicamente, ó ironia), manifestando a sua intenção de voto no Wilders. Explica ele, entre outras pérolas, que partilha a sua ideia de deportar os marroquinos que, na Holanda, encabeçam as estatísticas da criminalidade (estou a citar, e não, não há link. como citado autor também não se dá ao trabalho de lincar a fonte de tal afirmação sobre as estatísticas da criminalidade).

É o remate, a cereja no topo do bolo, daquilo que me parece um fim-de-semana temático. Deportemo-los, portanto. Todo um grupo, porque xis por cento deles fazem merda, sem mais. Nada cá de averiguar se entraram legal ou ilegalmente, ou atribuir penas acessórias de explulsão apenas a quem seja condenado por prática de determinados crimes. Todos, to-dos porta fora, aahhh, e quando isso não resolver os problemas sociais, e seja necessário arranjar outro bode expiatório, hum, logo se vê, há tanta escolha, já dizia o outro, primeiro vieram pelos judeus e eu nada fiz.

Por este andar, porque não privar de direitos cívicos todos, mas mesmo to-dos os homens? Afinal também são eles que encabeçam as estatísticas da criminalidade. Vamos a isso, cria-se uma espécie de reservas, enfiamo-los lá todos, ou talvez não, pois não? Logo vi.

[removido da minha lista de leitura. já andava a ponderar de há uns tempos a esta parte, atento o teor de umas transcrições de colunas de opinião nesse excelso pasquim que é o correio da manhã. e não deixo de lamentar que alguém envelheça assim, amargo, carcomido por preconceito, afogado em fel.]

quinta-feira, 9 de março de 2017

E agora, algo completamente diferente

Não entendo, aliás repudio o conceito de brunch. Gente que não acorda esgalgada de fome e não trata de se alimentar logo de manhã - depois do duche e se vestir, há mínimos, e outra coisa que não entendo e repudio veementemente é o pijaminha o dia todo - não é gente boa. E isto pode suceder às sete, nove, dez, onze, meio dia: não começar a jornada com piquen'almoço não é coisa de gente de bem. Pode ser continental ou inglês, mas é pique'almoço, não me lixem, não um tertium genus entre piquen'almoço e almoço. Não. Se depois não têm fome para almoçar, sejam crescidos e assumam, mas não abstardem nem amalgamem refeições. Dois em um é coisa de champô rasca e gente preguiçosa. Acordar tarde, não fazer desjejum, sair de casa para sítio mais ou menos chique onde se toma um piquen'almoço arraçado de almoço é já coisa de gente filha do demo.

Dito isto, e estabelecido que fica que pessoas que não acreditam em piquen'almoço não são bem pessoas, tenho de confessar que sou a favor e pratico muito aquele conceito que os amigos anglófonos chamam de breakfast for dinner. E alerto: porquê a discriminação, porquê ostracizar os adeptos desta modalidade? Porque não temos direito a nomenclatura própria, fuffets especializados em locais féchion, notação e divulgação em blogs de laife-staile?

Inicio, portanto, o movimento brinner - petit nom que sugiro para breakfast for dinner. Uma vez por semana, ao menos, celebrem a vida bonita jantando uma taçorra de gelado com canudinhos de bolacha baunilha. Uma tosta mista com cola zero. Pão e queijo. Bolo. Para os lacto-tolerantes, uma tigelinha de cereais; para os valentes que depois de um dia de trabalho têm força para fogãozices, panquecas. Saquem do telemóvel e instagramem estes momentos de puro deleite e savoir vivre. De loucura, de transgressão. Vivam no limite, assumam o risco. Ou isso, ou parem de ficar de olhos esbugalhados e de dar voz a reprimendas quando respondo com verdade, sem medo, com ousadia, à pergunta "'tão o que é que jantaste".

quarta-feira, 8 de março de 2017

[ ]



[e não, não vou elaborar sobre o tema e sobre a data, que estou até aos cabelos de merdiquices aqui no emprego a que acedi por concurso, a que concorri voluntariamente e em pé de igualdade com qualquer outro cidadão com as mesmas habilitações, depois de completar a escolaridade obrigatória, complementar e universitária, onde ganho o mesmo que todos os do mesmo escalão/antiguidade, sejam quais forem os cromossomas que lhes foram atribuídos à nascença, e nos entretantos também tenho outra vida, lá na casa que comprei e registei em meu nome, e ando a pagar a partir da minha conta bancária, e à qual chegarei em viatura também própria, que conduzo e estaciono num lugar que tomara muitos, e sem sensores, o milagre, casa essa onde decerto me mate chegará antes de mim, como habitualmente, e onde apanhará a roupa estendida e quiçá, que não mando nele, ainda adiantará outra máquina, ou não, se esperar ainda lá ponho a camisa que trago hoje, sendo certo que me marimbei para o jantar, logo veremos em que consistirá tal repasto, somos só dois porque assim o quis(émos), e o determinismo biológico não me/nos é imposto, e tal e tal, não, não me vou chatear a explicar que não celebro porra nenhuma, mas assinalo e não esqueço, nunca, quem não teve e não tem este leque de possibilidades pela frente, o direito a escolher, o direito a ter, o direito a viver como bem entender, e enquanto o estado de coisas for o que é, em que parte do mundo seja, e por que constrangimentos calhar, cá estamos, dia oito do três, todos os anos]

terça-feira, 7 de março de 2017

I'm mad as hell and I'm not going to take this anymore

Mad as hell é, basicamente, a tagline do meu feitiozinho do caneco. A parte do not going to take it anymore é que é mais transitório, ou seja, passa. Que remédio, um gajo não pode mandar tudo às malvas, por sistema. Às vezes é preciso trabalhar dentro do sistema, tipo bicho da fruta. De qualquer forma, voltando ao mad as hell, que aliás define muito bem a minha explosiva maneira de viver, já teve melhores dias. Acho que estou na reserva. E a pensar que, se a efectiva mudança e o caminho para tal não dispensa esse sentimento de revolta, este também não pode ser alimentado a acendalhas, ou um fluxo de combustível. Temos do outro lado do lago um bom exemplo que estar permanentemente zangado - e afirmar que não se atura mais "isto", seja lá o que "isto" for - pode ser um caminho bem pior.

[mas atalhando caminho, que de momento não tenho cabeça para estas considerações, que a revolta pelas grandes coisas se me está a esgotar, tantas vezes que nos últimos tempos se acendeu; e a revolta pelas pequenas - pequeníssimas, mesquinhas -  anda a consumir, tantas e tantas vezes me tem calhado neste maravilhoso buffet da vida que é o trabalho]

Achei curioso, para não dizer irónico, ter ontem visto este slogan num cartaz de uma manifestante, do outro lado do lago. Curioso porque identifiquei a frase, coisa que não teria podido fazer aqui há uma semana. Irónico porque penso que, de alguma forma, e embora possa parecer adequada a quem motivada e justamente se revolta, lá nos States, falhou-lhes uma possível leitura do filme de onde foi retirada.

O filme é Network, e tem quarenta anos. Córenta, jasus. E, ainda assim, seria uma das minhas primeiras escolhas para mostrar a estudantes de jornalismo. Caraças, que grande filme. Um tratado satírico sobre infotainment. Não é fácil retalhar e discutir, num mero e breve post. Desconstruir ou isolar todos os sumarentos temas abordados numa hora e picos de película, com um texto maravilhoso e interpretações fora de série (e oscarizadas), não é fácil. Mas deixo o isco. E o tema, ainda a badalar-me esta cabecita. A revolta: como, quando, porquê. E para - ou contra - quem ou o quê. Que não basta, este bater de pé, é preciso fazer, agir. Mas como. E com quem? O populismo, ou antes, o discurso populista. A revolta, pura e simples revolta; ou o mero discurso de revolta: a quem aproveita? O que farão dele - de nós, os revoltados? Epá, tanta coisinha para pensar.



 [clips com o devido spoiler alert, ok?]


 



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Coisas que eu digo pelo menos uma vez por semana (e depois vai-se a ver)

Agora é que é, mais solinho, mais calorzinho, aquela casa vai levar uma ganda volta.


Entretanto, acontece o "vai-se a ver".

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Tão mau que dá a volta e fica bom - pequeno exemplo prático

Cansadinha que estou, desgraçadinha que sou, e porque já não tenho cabeça para mais trabalho e o toffee crisp já foi, deu-me para ir para o iu-tub ouvir pimbalhada. E encontrei um dos meu guilty pleasures da década de noventa, a mesma década em que andava de camisa de flanela e a fazer ares de douda com nirvana.
Sim, vou partilhar (porque sou uma alma grande, generosa, que forças do mal tentam - debalde! - derrubar, e ainda hoje é terça e se soubessem o que tenho reservado para amanhã):




(um momento de silêncio)
(mais um)
(que vocês precisam de tempo, eu sei, assoem lá)

Ora, ora ora. O que dizer, não é, está tudo de boca ao lado, cara à banda com esta maravilha. Começamos pelo sinistro que é esta balada de (des)amor ser cantada por pai e filha?
Pelo noja-noja de o marafado de meia idade estar com uma moça ainda mais nova que a preterida e fiel companheira?
O mullet?
O ambiente casa de alterne circa mil nove e oitenta?
Que além disso o negócio deve andar mal, a avaliar pela pouca oferta de bubida?
O deprimente que é em 2017 eu ter o mesmo penteado que Cristiana nos anos 90?
A letra ser de um machismo atroz?
O fade-out final?

Ou revelo já que este tema era um sucesso brutal lá em casa, onde eu e o meu ainda adolescente irmão não perdíamos um Made in Portugal, e o cantávamos aos berros?
Que o refrão passou a ser uma inside joke nossa? Eu aos gritos para meu irmão "agora diz diante dela" (sendo que "ela" era mamãe, completamente ao lado) e mano a retrucar com a sua voz de barítono "cala-te por favor"?
E que a importei para meu - aliás santo - matrimónio, e muita vez guincho a me mate um melódico "cala-te por favor"?

Pronto, já passou. Este lindo momento de catarse. E agora já sabem mais um bocadinho sobre esta vossa.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

O mundo pula mas nem por isso avança

Uma livraria qualquer não interessa onde, nós às novidades, e acabamos distraídos com uma menina pucanina, que anda por ali a cirandar cantando baixinho e volteando em conformidade. Mêmo gira, a miúda, pá, os cínicos de sorrisinho besta.
Sucede nós estarmos junto à secção infantil ao mesmo tempo que dita menina - não, não somos stalkers tenebrosos, gostamos de livros para miúdos e há sobrinhos, também, isso, a desculpa são os sobrinhos. A pucanita está a tentar convencer a mãe, com toda a urgência guinchante dos seus argumentos, a levar determinado livro. A mãe diz que já têm, e ela levanta o de cima, mostrando outro da mesma colecção. E a mãe: não, esse é um livro de piratas, é para meninos, e tu és princesa, não cito de cor mas foi isto. A menina começa a chorar e mãe leva-a rapidamente.
E nós de boca aberta, a olhar um para o outro, opá, opá, opá. Mate resmunga que a menina lê o que quiser, ora (asneira gorda), e eu, que não contesto a decisão de comprar ou não o livro, entristeci-me com a justificação.
Tanto mummyblog, tanto workshop para mamãs, e ainda ninguém as ensinou que sim, são todas princesas, mas há princesas-pirata, princesas-mosqueteiro, princesas-aviador, princesas-explorador, tanto como há princesas-bailarina, princesas-princesa, ou princesas-fadinha?
Ca porra de vida, sinceramente, é isto 2017, deixem as miúdas ler e ser o que quiserem em paz.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Aguardo ansiosamente

Que alguém faça t-shirts com os dizeres "Bad Hombre" (para ele), e "Nevertheless She Persisted" (para mim).
Isso já compro.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Momento sócio-féchion

Uma pessoa também precisa dos seus momentos de pausa fútil, e distrair as vistinhas, pois claro que precisa. E, apesar de (cada vez mais) ser uma cliente pouco regular, gosto de ir ao site da zara, a "ver as montras". Além disso, novas colecções a rebentar, e yay!, não é? Pois é, e sucedeu isto:



Façamos uma pequena pausa contemplativa.
Já 'tá.
Tirando da equação apreciações estéticas puramente subjectivas (ahahahah, estava a brincar, é horrendo e quem disser o contrário precisa de ir apurar os níveis de glicémia), vou já aventar que esta merda de moda da roupa "distressed" - um óbvio e hipster-eufemismo para "estragada, irremediavelmente estragada" - já foi longe de mais.
A sério, com franqueza, olha que sinceramente.
E fala daqui uma sujeita que passou todos os invernos da sua passagem pela faculdade a estudar - em casa, só em casa! - agasalhada numa camisola que mamãe tentou - debalde - convencer-me que nem um sem abrigo aceitava vestir. Em minha defesa tenho a dizer que a) mamãe é muito exagerada, felizmente nenhum dos filhos lhe herdou a característica; b) era mesmo quentinha, o raio da camisola; c) estava sempre lavadinha, encardido não é porco.
Epá, mas isto, isto já é obsceno. Aliás, no ano passado já se cruzou a linha em alguns jeans à venda, literalmente presos por cordéis linhas de tão esburacados, mas não só não se parou a loucura como alastrou às camisolas. Quéssedezer, faz-se uma camisola toda catita, xinapáxinapá, e depois pega lá tesoura e desata a esburacar e puxar malhas. Não. Não. N-Ã-O. Não se estraga comida, não se estraga roupa, ponto. Ao menos de propósito, e muito menos se sai depois por aí a exibir a coisa.
O que falta agora? Nódoa-style? Camisa com medalha de refogado? Calça com mancha de jardineira? Camisola pintalgada de molhanga? É preciso por cobro a este flagelo. Parar este holocausto têxtil. Como diria qualquer mãe extremosa, há meninos que querem o que vestir e não têm. Se calhar, ironicamente, os mesmos meninos que produziram isto para first-world-féchion-acéfalos vestir. Há limites, pá.


[quando aqui há -muito - atrasado apareceu um filme (Zoolander!) onde um criador de moda apsicopatado (Mugatu!) apresenta uma colecção inspirada nos sem-abrigo, eu ri muito e achei muito bem apanhado. era nova e inocente.]

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Aleg[o]ria contagiante

Romain Gary foi-me apresentado por uma aposentada desertora disto aqui dos blogs ('tão, Wallis, tudo benzinho, sua fujona? saudadinhas!), e por causa dela esbodeguei-me toda com Uma Vida à Sua Frente. Valha-me tudo, que livro tão bom. Reduz-nos a uma poça de matéria liquefeita, uma papa de baba e ranho. Muito alegre, portanto. Não obstante, devia ser obrigatório ler. Funcionaria até como um teste de psicopata: pessoa que não sinta forte comoção é porque é totalmente desprovida de empatia face à mais profunda miséria, e como ser destituído de detecção de amor, dedicação e amizade, seria chutado para fora das muralhas da cidade.
Além do mais, foi um livro que me fez pensar em e questionar muita coisa, traçando paralelos - se calhar muito pertinentes, se calhar nem tanto assim - relativamente à reacção de tantas pessoas perante a tragédia dos refugiados, por exemplo. Alguém que seja capaz de advogar o puro e simples fechar-lhes a porta na cara seria alguém não apto digno a apreciar receber a história de Momo. Acho eu.

Uma vez apresentada, seria inevitável não reincidir, e vai daí ataquei Educação Europeia. De novo, muito alegre, (como o autor, suponho, que pôs fim à sua existência - uma pessoa com este nível de empatia e discernimento muito provavelmente carrega em si um peso do tamanho do mundo, e juro que não sei o que é insistir em viver quando se é assim, deve chegar a um ponto que é insuportável). E, mais uma vez, eu ali esmerdalhada. Não tanto como no outro, mas ainda assim. De novo uma história narrada pela voz da inocência, um adolescente apanhado na tragédia da guerra, e cujos pais decidem proteger fazendo-o refugiado na floresta. Ali escondido, nos arredores de Vilnius, passa um dos tempos mais terríveis da Europa, entre os guerrilheiros da resistência (partisans / maquisards, que a tradução manteve no original francês, e bem, à falta de melhor correspondência em português). Ali vai crescendo e recebe a sua "educação europeia" - não vou explicar a origem desta caracterização, é spoiler para uma das melhores definições do que é ser-se europeu entre 1939-45, dada pelos personagens.
Mais uma vez, muito a propósito ou a extremo despropósito, lá eu a fazer as minhas notas mentais de como é um livro essencial para compreender um certo passado europeu e, quiçá, questionar mais e melhor definir o que queremos para o futuro da Europa (que, espero estar muito enganada, mas entre os tempos brilhantes do saber veiculado nas melhores universidades e centros de conhecimento, e as mais absolutas trevas e miséria, é um pulinho).

E pronto, apeteceu-me partilhar isto, aqui, com quem quiser. Apetecia-me até transcrever tantas citações brilhantes, mas não tenho tempo e a maioria é um bocado spoiler. Este blog e a dona andam um bocadinho à deriva, sem mapa, bússola ou estrelas que a guiem, mas tantas vezes é nestes passeios que se encontram as melhores paisagens. Ou paragens. E eu ando cheia de vontades de (voltar a) escrever sobre livros, filmes séries e o raio que o parta. Entretanto comecei outro (também muito alegre; sim, há aqui um padrão, cada um é para o que nasce) que a duas, três páginas já me tinha presa pelo pescoço, lá a ver se daqui a uns dias nos encontramos por aqui a falar disso. Em calhando, acontece.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Era matá-los a todos muito bem matadinhos

Esta semana tinha um aviso na caixa de correio. Sim senhora, 'xa cá ver quem manda saudades, epá, isto aqui é ascendi?, é ascendi.
Entrei em pânico, porque é uma cena que eu sei fazer mesmo muito bem, entrar em pânico, e convém uma pessoa exercitar regularmente aquilo em que é mesmo bom, só assim poderemos atingir todo o nosso potencial nesta vida.
Atenção: eu sei o que é a ascendi (concessionária de auto-estradas), e sei o bambúrrio que uma pessoa pode ter de pagar depois de uma distracção, como passar pela via verde sem ter aderido à dita. Estava eu então num aimedês aimedês tu qués lá ver, a tentar recordar se ali na troca de carros e antes de comprar o identificador para o novo tinha metido a pata na poça, chego à conclusão que não, afinal eu sou aquela que fez duas passagens com amarelo - falta de pilha - e foi em pânico - lá está, sempre em busca da excelência - à loja dos senhores tratar da coisa.
E baixou de repente um tu qués ver. Ai o carro antigo, anda alguém aí no forrobodó.
Fui à net, esse lugar onde tudo se encontra. E encontrei o site da ascendi, onde confirmei que não circulei em nenhum dos seus percursos. E encontrei o site dos CTT, onde podemos consultar se a nossa matrícula tem alguma coisinha pendurada. Não tinha, nem a actual nem a anterior.
Ainda assim, continuei em pânico, porque a prática faz a perfeição.
Só ontem consegui ir aos correios levantar a coisa. Abri a carta logo ali e - eu sei que me repito - pânico. Aicafoda uma cena por pagar, ai jasus que s'isto vai para execução tou tramada, vou já já já ali ao multibanco já já já.
Felizmente baixou um pééééééra lá. Mas isto foi adonde? Confirmei: Guimarães. Bela localidade, onde não poiso nem os pés nem os pneumáticos para cima de uma vida. E foi quando? Confirmei: dois meses antes de adquirir a puta da viatura aos senhores da Salvador Caetano.

Modos que é isto. Calha bem, que tenho uma mudança de uma pecita marcada para a semana, materiais inflamáveis já lá há, isqueiro tenho sempre.
Na segunda vejam o telejornal, sou capaz de aparecer.


[de qualquer maneira tenho de responder à ascendi, que tenho prazo a correr. uma canseira. e tenho de ir procurar lá pela casa se ainda tenho a papelada de quando comprei a carroça, que deves estar maluques se achas que vou pedir - e pagar! - uma certidão de registo automóvel. por acaso até acho que já prescreveu, mas isso os caetanitos que se preocupem, eu só tenho de provar que não era proprietária.]